terça-feira, 26 de abril de 2011

Amós, sua vida e critica. (alterações da profecia para a apocalíptica)



Introdução                                              

Os profetas são portadores da mensagem critica de Javé a sociedade Israelita. O profeta é aquele que tem uma dupla missão: anunciar o Deus verdadeiro, seu rosto, seus traços, e isso requer de sua parte uma profunda experiência de Deus. A segunda missão é denunciar à idolatria, os falsos deuses do povo e dos reis, e a injustiça, a violência, a cobiça dos grandes e poderosos. Em síntese, os profetas são “tradutores de Javé para a sociedade”.

Para os desavisados, esse artigo tem como objetivo um esboço sobre a vida e critica do profeta Amós de Técua, mas para melhor compreendermos sua vida e critica social a Samaria dividiremos o esboço em vários tópicos: no primeiro tópico leremos à mensagem critica do profeta Amós de Técua para a cidade de Samaria. No segundo momento leremos as alterações situadas no livro de Amós, neste mesmo passo responderemos as indagações: Como Amós era lido numa metrópole como Jerusalém no século I da nossa era?  Como o texto pode ser sagrado se ele não fala mais a sociedade?

Bíblia como biografia do pobre.

Para entrar no cenário que forma a realidade do profeta Amós é preciso um prelúdio conhecendo o quanto a bíblia é importante para aqueles que a sustentaram por longos anos na “memória oral”.
A bíblia é a memória dos pobres e os monumentos à memória dos ricos. Ao ler a bíblia estamos entrando no mundo da pobreza, da denuncia, do desespero, mas também no mundo da esperança daqueles e daquelas que resolveram construir a suas historias ao lado de um único Deus, chamado Javé. Os textos são escritos a partir da realidade do povo, com mensagens de justiça, com situações de opressão e intervenção de Javé com libertação. A bíblia é a síntese da historia de um povo oprimido por outros povos, suas estórias (mitos, fabulas etc.) e historias narraram a participação de Javé na luta pela conquista da terra, na construção de homens e mulheres “livres” em defesa dos mais fracos. Mas a historia do povo judeu não se inicia com a escrita, não é pela organização dos escribas, ela vem antes, na tradição oral. Para os pobres hebreus a bíblia antes de se tornar textos impressos em argila, papiros e pergaminhos, estava na memória do povo. Exemplo:

. Tradição oral. A historia era contada de geração a geração. Os anciões se encarregavam de memorizar a historia do seu povo e transmiti-las aos jovens.

E interessante lembrar que a escrita não desmorona a tradição oral, os pobres não sabiam ler, dependiam dos escribas, sem esquecer que o papiro e o pergaminho tinha um custo alto. Por isso a tradição oral prevalecia nos arredores das camadas populares de Jerusalém, como a maioria eram analfabetos a tradição oral predominava. 

A leitura da bíblia sempre é a experiência de tentar escutar as vozes da tradição mesmo diante da neblina de múltiplas teologias, ela nos ensina ler tanto com a mente, mas também ler com o coração. Grande parte dos hebreus eram pobres camponeses que alimentavam suas vidas na perspectiva da esperança de que um dia Javé governara com mãos fortes sobre seus opressores. Crer, para tradição hebraica era lembrar, memorizar sua historia preparando o povo mais jovem para o futuro de alegria juntamente com Javé.

Amós

Sua cidade: Era natural de Técua, povoado situado ao sul de Jerusalém, a menos de 20 km da capital de Judá. Aprendemos também que ele era pastor. E a indicação de que ele atuou no tempo dos reis Jeroboão, de Israel, e de Ozias, de Judá,  "dois anos antes do terremoto" - fenômeno que a arqueologia descobriu ter acontecido na primeira metade do século VIII a.C. - nos permite dizer que foi aí por volta de 760 a .C. 



Sua profissão: Am 1,1, nos diz que ele era pastor. Am 7,14b nos informa que Amós era vaqueiro e cultivador de sicômoros. O sicômoro (Ficus Sycomorus, em hebraico: schiqmah) é uma árvore da família da figueira. O seu fruto, comestível, se parece com o figo. As frutas devem ser arranhadas com a unha ou com um objeto de metal antes de amadurecerem para que fiquem doces. Talvez fosse esse o serviço de Amós. Somadas as informações, parece que Amós dedicava-se a três atividades: ele era vaqueiro, pastor (de rebanho miúdo) e cultivador de sicômoros.
Não podemos ir mais alem devido à falta de documentos deste período, com relação a Amós não tivemos êxito nas escavações arqueológicas, Técua não foi encontrada. Mas a cerca de 4 km de Técua encontram o tumulo de Herodes, O Grande (IV a. c). Miquéias morava a cerca de 20 km do vilarejo de Amos, mas também não sabemos nada de sua cidade, ela sucumbiu. 

Entender Amós e sua critica a partir do texto

Texto: 3. 9,10,11

Para compreendermos a mensagem de Amós precisamos olhar o texto. Apesar de que, o livro sofre varias influencias na sua redação e na sua teologia, mesmo assim encontramos um pequeno trecho do texto que podemos considerar como palavras fidedignas de Amós. 

3.11 – Tem uma seqüência lógica. O inimigo saqueara a terra (Quem é o inimigo?) também saqueara o palácio (palácio que Amós menciona situava-se na cidade de Samaria). Quem esta em Técua pode esconder-se do inimigo nas cavernas assentadas aos arredores do vilarejo, mas quem esta na cidade (a elite) não tem lugar para se esconder.  A mensagem central no versículo 11: “Essa sociedade que explora vai ser devastada”.

3.9 – Quem pensou e formulou esse texto? Amós, por quê? Ele não diz: Assim diz Javé. Amós conhece o processo de exploração do povo, tem conhecimento que a opressão se instaurou nos arredores de Técua. Nem todos trabalhavam no campo, boa parte dos pobres migravam para as cidades a procura de trabalho, muitos eram empregados no palácio como: Jardineiro, lavadeira, cozinheira e etc. Provavelmente são esses trabalhadores que expressam para Amós a sua indignação e exploração. 

3.10 – A opressão da corte em Samaria era tanto que mesmo os seus inimigos poderiam ver o quanto o processo de desordem e roubo se instaurava na cidade (Asdode e Egito como olhos de estrangeiros).
Esse é o profeta, aquele que protesta a favor dos oprimidos explorando a linguagem critica social.

A mensagem de Amós é percebida quando o ambiente geográfico que esta situada tem condições humildes e que tem poucos haveres (Técua). Mas quando Amós era lido na sociedade grega, isso que ele dizia para a elite palacial ainda tinha algum valor? O ambiente do texto de Amós é agrícola, Agora ele é lido em Antioquia; onde tem 600.000 habitantes, em Alexandria que agrupava 1.000.000 de judeus, será que esse Amós de Tecua faz algum sentido para a metrópole? Amós e inserido numa vida que existe controle, mas como lê-lo numa sociedade grande que comporta 1.000.000 de pessoas, cujo vida não tem nenhum controle?
O livro de Amós teve que passar por alterações profundas para ser aproveitado, conquanto essas alterações foram necessárias para que o seguinte livro não fosse retirado do cânon bíblico.

Em que sentido o livro de Amós foi alterado?

Cap. 1. 2 – Quem escreveu este texto acreditava que Deus era de Sião, de Jerusalém faz ouvir a sua voz. Amós acreditava nisso? Não. Amos nunca foi no templo, o lugar sagrada para Amós era o campo cuidado do gado e arando a terra. Neste versículo a palavra de Deus vem de Jerusalém (do templo, lugar sagrado), provavelmente quem formulou e pensou esse texto era sacerdote que considera a área do templo como área nobre.
O Carmelo é o lugar mais verde da Palestina, por estar perto do mediterrâneo à primeira chuva banhava o monte.
Deus vai por fim na agricultura, os camponeses vão morrer de fome?  Para Amós, Deus iria derrubar os castelos, Deus nunca falou contra os agricultores nem tão pouco com os pobres do campo. Se o Carmelo vai secar o que os pobres iram comer? Todos vão passar fome.

Que linguagem e essa? Esta linguagem não é profética, mas sim apocalíptica.

A diferença fundamental entre a linguagem profética e a apocalíptica é que: A profecia tem uma relação entre o que você faz e o que você leva (conseqüências dos atos, a corte rouba e automaticamente vai ter o que ela merece, mas isso numa sociedade pequena). Como vou saber quem rouba e quem é roubado em Roma, Alexandria, Jerusalém e etc.? 
A apocalíptica é a palavra de Deus numa sociedade cosmopolita (não podemos conhecer quem roubou em que a analise da pobreza se tornou complexa, mais Deus sabe, Ele nos “revela”). Apocalíptica não faz a leitura da historia desde o começo, mas é uma tentativa de der a historia a partir do fim, é Javé “revelando”, tirando a cortina para que nós percebêssemos o céu, è celebrar a esperança na confiança de Javé que vem de cima em defesa dos oprimidos
Um fragmento de hino apocalíptico introduzido no livro de Amós para celebrar Deus como soberano Senhor do universo (Amós 9. 5,6)     

Considerações finais

Se o texto de Amos não tivesse sido alterado para a linguagem apocalíptica ele não estaria na bíblia. A releitura dos textos de Amós possibilitou um dialogo com a sociedade grande, com seus processos de injustiça e exclusão. Não podemos esquecer que o evangelho não é verdadeiro por que foi escrito, mas sim por que ele irradiou a minha vida, por que ele esta na desordem da vida e também por que prepara a vida de muitas pessoas.     

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